António Saraiva: Os desafios para a alimentação e agricultura mundiais

A percepção sobre os desafios para a alimentação e agricultura mundiais, dentro e fora do sector.

António Saraiva, presidente da Companhia das Lezírias, é o entrevistado desta semana. Formado em Engenharia Agrónoma, desempenhou funções de Country Head e Iberian Suply Chain Manager na empresa Syngenta, e foi presidente da direção da Anipla entre 2001 e 2009.

À frente dos destinos da maior exploração agropecuária e florestal existente em Portugal, António Saraiva revela a sua incapacidade em “imaginar um mundo em que a alimentação não tenha como base a agricultura”. Perante os desafios pelos quais o sector tem passado, reconhece que existe na população um cada vez maior distanciamento da realidade agrícola.

1. Na sua perspetiva, qual a importância que a agricultura tem na alimentação mundial?

Penso ser desnecessária a referência a mais números, que são do conhecimento geral, e que são sempre usados para mostrar a importância da alimentação numa população crescente e com alteração nos hábitos de consumo.

Não sou capaz de imaginar um mundo em que a alimentação não tenha como base a agricultura, seja ela mais ou menos sofisticada e desenvolvida como a conhecemos hoje ou com graus de inovação mais disruptivos em certa extensão.

Acho que os estados e os governos têm plena consciência, estratégias e planos para um futuro em que o acesso aos alimentos possa apresentar níveis de dificuldade diferentes dos que existem actualmente.

2. Considera que a população está ciente dos desafios da agricultura?

Acho que não. O distanciamento da realidade agrícola e florestal é cada vez maior e os movimentos de regresso à ruralidade e à terra não passam de episódios fugazes que se dissipam como todos os outros fenómenos de moda. Mas sinto que a população reconhece esse distanciamento e valoriza muito qualquer experiência que a expõe à realidade agrícola e que, de alguma forma, a devolve às origens.

3. Na sua perspetiva, quais os maiores mitos existentes, por parte do consumidor, sobre a agricultura moderna?

É fácil obtermos uma opinião de qualquer pessoa sobre os desperdícios e ineficiências da actividade agrícola, sobre a excessiva utilização da química na agricultura e na pecuária e sobre o perfil do agricultor médio. São opiniões baseadas em percepções, como tal pouco fundamentadas e incorrectas.

Também se acredita na abundância de produtos agrícolas e na sua plena disponibilidade ao longo de todo o ano. E também que os preços são estáveis havendo muita incompreensão quando a escassez faz subir o preço de um determinado produto ou quando desaparece das prateleiras de um qualquer ponto de venda.

4. Quais são, na sua visão, os desafios ao setor agrícola para os próximos anos?

Claramente as alterações climáticas. E com elas a necessidade de repensar as práticas culturais e a ocupação do solo. Uma “cruzada” pela eficiência e a inevitável incorporação de tecnologia nos processos produtivos para uma intensificação inteligente e com visão holística. E depois, dar resposta a todas as alterações societais que possam advir das próprias alterações climáticas e geopolíticas.

5. Que medidas considera que deveriam ser tomadas pelo setor agrícola para aproximar o consumidor da agricultura moderna?

Comunicar eficientemente usando os canais de comunicação mais utilizados pelo público e com uma linguagem acessível, conseguir uma presença regular junto dos media com informações que sirvam para ilustrar a realidade agrícola e as inovações produtivas.

É importante que o sector escute os seus “clientes” para saber como eles vêm o futuro da agricultura e o papel que esta deveria desempenhar para assim poder adaptar o seu discurso e evidenciar o caminho que está a ser feito.

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