João Santos Silva, Presidente do “EUROAGRI FoodChain”, e director do Centro de Competências para o Tomate-Indústria (CCTI)

A percepção sobre os desafios para a alimentação e agricultura mundiais, dentro e fora do sector.

Esta semana falámos com João Santos Silva, Presidente do “EUROAGRI FoodChain”, e director do Centro de Competências para o Tomate-Indústria (CCTI).

Para este engenheiro agrónomo, pós-graduado em gestão e comercialização de ciência e tecnologia, existe falta de conhecimento sobre os desafios macro-sociais para a gestão responsável da alimentação mundial.

João Santos Silva, colaborador assíduo como avaliador em vários programas nacionais e internacionais de apoio à ID&I empresarial no setor agro-alimentar, partilhou connosco a sua perspectiva sobre a distância entre o consumidor e a agricultura moderna.

 

1. Na sua perspetiva, qual a importância que a agricultura tem na alimentação mundial?

Os cenários macro-sociais apontam para desafios importantes a serem considerados pela “gestão responsável” das dinâmicas e condicionantes associadas com a alimentação mundial.

Assim, em 2050 prevê-se que:

– Cerca de 70% da população mundial seja urbana, o que obrigará a uma grande logística de alimentos para esses centros, em paralelo com a maior eficiência na aplicação do factor trabalho na agricultura.

– A população mundial atinja os 9 mil milhões de pessoas, ou seja, mais de 6 mil milhões viverão em centros urbanos, de acordo com a condição anterior.

– Cerca de 3 mil milhões de pessoas irão aumentar ou introduzir o consumo de proteína animal nas suas dietas. Este facto irá promover pressão em toda a cadeia produtiva pela ineficiência na conversão energética planta-animal-humano.

– Se constatem ocorrências meteorológicas fora dos padrões normais, em curtos espaços de tempo ou com severidade muito acentuada, levando a impatos muito marcantes (inundações, secas, tempestades, vento fortes), e consequentemente quebras na produção agrícola expectável.

– Incremente a globalização do setor agrícola, permitindo que o impacto das decisões tenha repercussões em mercados muito longínquos; ou que as políticas locais tenham impacto em contextos agrícolas muito distanciados à escala do globo. Neste cenário as correções de causa-efeito serão menos evidentes e menos reativas.

Agora, não podemos ser fundamentalistas Malthusianos, devemos, por outro lado, acreditar na capacidade racional do ser humano e sobretudo na sua capacidade de produzir Ciência, baseada em Investigação e Desenvolvimento com sentido prático e aplicável para mitigar os problemas ou maximizar as oportunidades.

 

2. Considera que a população está ciente dos desafios da agricultura?

Na língua de Camões é mais difícil, pois a Segurança Alimentar (Food Safety) confunde-se com Segurança Alimentar (Food Security). A minha opinião, enquanto consumidor, é que estamos alerta para a primeira premissa – food safety – devido às normas (legais e outras) que nos vão chegando pelos mais variados canais e sobretudo devido a um fácil entendimento entre causa e efeito. No entanto, a outra – food security – é uma condicionante mais afastada no tempo…e temos tendência para a descurar na atualidade.

 

3. Na sua perspetiva, quais os maiores mitos existentes, por parte do consumidor, sobre a agricultura moderna?

Penso que os dois maiores mitos estão em extremos opostos na mesma linha de pensamento; explicando: encontro muitas vezes a ideia que existe uma baixa incorporação tecnológica no setor agrícola, ou seja, um setor parado algures no século XX, com rotinas bem definidas e enormes incertezas de sucesso devido às variáveis meteorológicas. Por outro lado, encontro o oposto – os supostos arautos das ” Frankenstein seeds” – que nos tentam passar a ideia do hipotético descontrolo que possa existir na utilização de tecnologias “dantescas” na agricultura.

AMBOS SÃO MITOS!

A agricultura atual, é obrigada a ter sucesso num perfeito cenário Darwinista, este facto só permite uma postura muito profissional e extremamente exigente na assertividade com que se aplicam as tecnologias. Esta última premissa só se consegue com conhecimento e responsabilidade na interação com os elementos. De volta à frase do inicio, eu diria que o agricultor de sucesso está algures na linha de utilização do conhecimento e das corretas tecnologias, nos extremos, estão os mitos!

 

4. Quais são, na sua visão, os desafios ao setor agrícola para os próximos anos?

Se tomarmos a resposta anterior, referente “à importância que a agricultura tem na alimentação mundial”, verificamos que a agricultura tem que ser capaz de responder aos cenários aí expostos e que se possam vir a materializar, mas sem nunca perder uma relação de confiança para com os consumidores. Aqui, defendo as muitas insígnias criadas, que nos permitem diferenciar, e manter uma relação de confiança para com um operador, que não conhecemos pessoalmente, mas que sabemos que está lá para cumprir o que pedimos dele enquanto consumidores.

 

5. Que medidas considera que deveriam ser tomadas pelo setor agrícola para aproximar o consumidor da agricultura moderna?

Um dia, estava de visita a uma estufa do Oeste com o agricultor proprietário, e uma criança entrou na estufa e colheu um fruto, trincando-o naquele mesmo instante.

O Pai não se preocupou nada, sabia o que tinha aplicado, quando, e quanto.

No dia em que o consumidor tiver esta imagem como certa, em toda a agricultura – os filhos dos agricultores comem o que os Pais produzem – será o dia em que o consumidor não receia a agricultura moderna.

Veja aqui o vídeo com o resumo da conversa.

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