José Palha: Separados na atividade, unânimes na preocupação para com o futuro da atividade agrícola.

José Palha, produtor e presidente da direção da ANPOC

A visão sobre os desafios à produção agrícola na atualidade, tomando como ponto de partida o estudo que a ANIPLA realizou em parceria com a Universidade Católica. Esta semana com o produtor Agrícola, José Palha, e na próxima semana com o estudante universitário, Paulo Godinho.

O Centro de Estudos Aplicados (CEA) da Universidade Católica Portuguesa, em parceria com a ANIPLA, realizou um estudo à população portuguesa adulta para aferir o seu conhecimento quanto às realidades da produção agrícola. Uma das conclusões indica que 93% dos inquiridos não sabe que a produção alimentar global precisa de aumentar 60% até 2050.

Os resultados demonstram a necessidade de aumentar o diálogo entre o sector agrícola e a população, para aumentar a cooperação e gerar maior conhecimento público para um tema de tanto impacto na sociedade.

1. O que podem fazer os agricultores para aumentar a perceção do consumidor de que é preciso acelerar de forma substancial a produção de alimentos para dar resposta ao crescimento da população mundial?

A comunicação é fundamental! O sector agrícola tem que se aproximar da opinião publica, dar-se a conhecer e mostrar o que é a realidade do sector e de todo o mundo rural. Vivemos numa zona do planeta onde a fome, felizmente, não se faz sentir, por isso, a maioria da população urbana não sente que é preciso aumentar a produção para alimentar o mundo. Um grande exemplo deste desconhecimento foi a seca que vivemos até há bem pouco tempo. As pessoas só começaram, de facto, a preocupar-se quando se aperceberam que havia o risco efetivo de faltar água nas torneiras de algumas cidades do País. Até então, toda a gente andava satisfeita com o bom tempo, enquanto que no mundo rural o panorama era trágico.

2. O que vai ser necessário fazer para responder a esta necessidade de aumento de produção?

Eficiência. Os agricultores têm que ser mais eficientes, produzir mais com menos, isto é, utilizar os recursos de forma mais competente (água, energia, fertilizantes, fitofármacos…). Assim, os custos serão mais baixos, a produção em maior quantidade e o impacto ambiental menor.

3. Na sua opinião, quais são os três maiores desafios que os agricultores enfrentam perante fenómenos resultantes das alterações climáticas?

A meu ver, os três maiores desafios para os agricultores, mas também para os investigadores e para todo o país são: manter a atividade nas regiões mais afetadas por este fenómeno, como é o caso do sul do país, criando condições para mitigar os efeitos destas alterações, que passam sobretudo pelo armazenamento de água. Sugiro que se devem cons-truir mais barragens e reservatórios para guardar a água e utilizar em períodos de escassez.
O segundo desafio é tecnológico e diz respeito às variedades a cultivar e à necessidade de se encontrarem novas variedades mais adaptáveis ao nosso clima mediterrânico e menos suscetíveis à falta de água.
Por fim, as pragas e doenças. A investigação tem que estar muito atenta às novas estirpes de doenças que aparecem mais frequentemente para que tenhamos ferramentas atualizadas para proteger as nossas culturas. Dou como exemplo a ferrugem amarela que não existia até há cerca de cinco anos e que agora é um problema nos cereais.

4. O estudo demonstrou que os portugueses preferem alimentos biológicos, mas desconhecem a forma como são produzidos, nomeadamente, o facto de também usarem produtos fitofarmacêuticos. É um mito que é necessário esclarecer?

Penso que a informação é muito importante. Muitas vezes a população faz escolhas alimentares pouco informadas, com base em informações/opiniões/sensibilidades de figuras públicas, que todos os dias nos entram em casa, efeito do mundo globalizado e altamente “informado” em que hoje vivemos. Como o estudo demonstrou, existe um grande desconhecimento, mas ainda assim os produtos biológicos continuam a ser os alimentos preferidos. É claro que acho que tem que haver mais informação, mas informação científica e fidedigna, não meras opiniões.

5. Na defesa de práticas sustentáveis, tem-se apelado ao consumo de produtos sazonais (da época) e locais. Qual a importância dessas práticas para os agricultores portugueses?

Obviamente que é muito importante. Recordo que antigamente em todos os menus dos restaurantes havia sempre “fruta da época”, algo que hoje já não existe. Temos à nossa disposição todos os frutos, durante o ano inteiro, que vêm de todo o mundo, só variando o preço e a pegada ecológica desse produto. É fundamental que este apelo seja cumprido não só para os agricultores, mas para o ambiente e para o planeta.

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