Fito-Entrevista: Os desafios à produção agrícola por Elizete Jardim

Elizete Jardim, Direção Regional de Agricultura e Pescas de Lisboa e Vale do Tejo.

O Futuro da atividade agrícola dentro e fora do Setor.

A visão sobre os desafios à produção agrícola na atualidade, tomando como ponto de partida o estudo que a ANIPLA realizou em parceria com a Universidade Católica. Esta semana com Elize-te Jardim, da Direção Regional de Agricultura e Pescas de Lisboa e Vale do Tejo e na próxima semana, com a psicóloga Filipa Viana.

O Centro de Estudos Aplicados (CEA) da Universidade Católica Portuguesa, em parceria com a ANIPLA, realizou um estudo à população portuguesa adulta para aferir o seu conhecimento quanto às realidades da produção agrícola. Uma das conclusões indica que 93% dos inquiridos não sabe que a produção alimentar global precisa de aumentar 60% até 2050.

Os resultados demonstram a necessidade de se aumentar o diálogo entre o sector agrícola e a população, para aumentar a cooperação e gerar maior conhecimento público para um tema de tanto impacto na sociedade.

1. O que podem fazer os agricultores para aumentar a perceção do consumidor de que é preciso acelerar de forma substancial a produção de alimentos para dar resposta ao crescimento da população mundial?

Mais do que referir “a perceção” do consumidor, eu diria, “a opinião pública em geral”. Sim, porque em contexto de alterações climáticas, a escassez de recursos leva muitas pessoas a acusarem os agricultores de uso excessivo do solo, da água, etc.

Muitos países e organizações, incluindo a FAO, têm definido como prioridade o desafio de debelar a fome. Desafio que é lançado paralelamente à sensibilização para a necessidade de produzir alimentos, de formas preservadoras dos recursos naturais. Os agricultores, como principal elemento da fileira alimentar (agricultura, pecuária e pescas), mas também as suas organizações e associações de produtores e de fornecedores de serviços, a agroindústria, o agroturismo, as cadeias de distribuição, a investigação e os serviços públicos que definem e executam as medidas de política, têm um papel ativo no contributo a dar, para melhorar a perceção de todos relativamente à necessidade de aumentar a produção dos alimentos. Essa sensibilização feita pelos agricultores, recorrendo a uma linguagem simples e transparente, através dos agentes de comunicação social e das instituições públicas e privadas ligadas à cadeia da produção alimentar é primordial através de, nomeadamente:

  • Os agricultores, por seu meio ou por intermédio dos seus representantes, têm participado em muitos eventos nacionais e locais para dar a conhecer a sua atividade através da televisão, rádio, feiras… nos vários contextos onde se inserem: social, económico, ambiental, turístico, etc., mas mais poderá ser feito, explorando as potencialidades da comunicação global como a internet (sítios web, redes sociais, etc.).

 

  • É também fulcral trazer-se os consumidores e os seus representantes para a esfera do conhecimento e divulgação, integrando-os em debates temáticos, seminários, conferências e sessões de esclarecimento.

 

  • Sensibilizarmos para a necessidade de produção e do consumo de alimentos produzidos com responsabilidade e qualidade, não propriamente apenas com bom aspeto exterior, pois este fator isolado, contribui para o desperdício de muitos alimentos, o que de todo não é desejável.

 

2. O que vai ser necessário fazer para responder a esta necessidade de aumento de produção?

Será necessário continuar a utilizar as soluções mais eficientes e sustentáveis, que já muitos agricultores utilizam, e continuar a encontrar novas formas de produção que permitam alimentar as pessoas do mundo inteiro conservando os recursos naturais – limitados e preciosos!

A água e o solo têm que ser utilizados de forma a permitir a resiliência dos sistemas ecológicos e a sustentabilidade da produção agrícola, pecuária e das pescas, em integração com todas as outras utilizações do território rural, como a silvo pastorícia, a silvicultura e a cinegética. O cuidado com a proteção da natureza (água, solo, ar e seres vivos) é importante em áreas classificadas, zonas vulneráveis, reservas agrícolas e ecológicas, para nomear apenas algumas, em respeito pela biodiversidade e pro-movendo o desenvolvimento rural das populações. Na Europa e em Portugal a preocupação já vem de longa data.

Nesta linha de pensamento e dinâmica de progresso, com os olhos postos no futuro das novas gerações, a DRAPLVT recentemente atualizou a sua assinatura: “Valorizar para preservar a Terra e o Mar”, pois o nosso empenho na contribuição para a disponibilização de alimentos seguros e saudáveis aos consumidores segue a par com a preservação da terra, incluindo a água, o solo e o ar e do mar. Esta-mos, assim, comprometidos e é nossa função participar na formulação e execução das políticas nas áreas da agricultura, desenvolvimento rural e das pescas, contribuindo para a implementação das medidas e ações nas áreas da segurança alimentar, proteção animal, sanidade animal e vegetal, conservação da natureza e florestas, no quadro da eficiência da gestão local de recursos.

O aumento de produção tem que ser atingido de forma holística, abrangendo e integrando todos os intervenientes e todas as soluções inteligentes para produzir, mas também transportar, processar e consumir os alimentos, tendencialmente em circuitos curtos e circulares, dinamizadores da coesão territorial, social e intergeracional. A investigação tem também um papel importantíssimo na ligação da ciência aos agricultores. Há muitos exemplos de soluções inovadoras e sistema de agricultura que procuram produzir mais e/ou melhor com menos, reduzindo as perdas na produção e o desperdício de alimentos. Falo de equipamentos mais eficientes na utilização da água e nutrientes, na aplicação de produtos fitofarmacêuticos, da agricultura de precisão, da agricultura sem solo, com recurso a substratos ou hidroponia, da agricultura vertical, da agricultura com atmosfera controlada, da produção integrada, da agricultura biológica, da economia circular a que muitos já aderiram, da indústria 4.0, etc.

 

3. Na sua opinião, quais são os três maiores desafios que os agricultores enfrentam perante fenómenos resultantes das alterações climáticas?

São três os principais desafios: a falta de água ou excesso dela, o aumento das pragas e das doenças e as flutuações de preços resultantes de maior ou menor oferta nos mercados. Os agricultores são desafiados a inovar e a adaptar-se para aumentarem a eficiência. Existem muitas opções que permitem aos agricultores lidar com as alterações climáticas, mas a sua utilização depende de serem ou não economicamente rentáveis. Inovação, adaptação e aumento de eficiência têm de ocorrer em todas as vertentes – fatores de produção, tecnologias, equipamentos, armazenamento, conservação, transporte, distribuição, venda… até ao consumo.

No contexto das alterações climáticas está a ser pedido aos agricultores que produzam mais alimentos e mais saudáveis, com menor utilização dos recursos naturais e maior retorno económico para os trabalhadores do setor. De facto, está a ser exigido mais do que nunca aos agricultores. E as soluções têm de ser eficientes! É exigida uma gestão holística da produção, em interligação com os outros setores da sociedade, tendo sempre como meta a satisfação do consumidor e as tendências de consumo, também elas em mudança como a procura de alimentos com aditivos: suplementos, vitaminas ou novas fontes de proteína que ditam a direção dos mercados e consequentemente da produção.

Para além da resiliência necessária, perante as flutuações de mercado! Saber aproveitar todas as oportunidades geradas pelo impacto das alterações climáticas noutros países e, bem assim, o seu contrário.

E há também as intempéries… os agricultores têm que lidar com as consequências das alterações climáticas com impacto nos ciclos de secas e cheias, com os eventos extremos de granizo, escaldão, ci-clones, tufões, pragas e doenças, espécies invasoras… simultaneamente, é preciso preservar o solo e a água, aumentar o sequestro de carbono, diminuir a produção de gases com efeitos de estufa. E não podemos esperar que a agricultura enfrenta estes desafios provocados pelas alterações climáticas por conta própria ou de forma isolada, mas antes no seio de ações e medidas locais, nacionais e internacionais.

 

4. O estudo demonstrou que os portugueses preferem alimentos biológicos, mas desconhecem a forma como são produzidos, nomeadamente, o facto de também usarem produtos fitofarmacêuticos. É um mito que é necessário esclarecer?

O conhecimento sobre a agricultura biológica precisa ser aumentado para que, de forma transparente, sejam conhecidas todas as vantagens deste sistema de produção, para os consumidores e para o ambiente.

As pragas, as doenças e os infestantes são uma realidade para todos os agricultores que, de forma transversal, mais ou menos incidente, afetam todos os tipos de sistemas produtivos. Evitar ou atrasar a instalação das pragas, doenças e infestantes nas culturas é o objetivo de qualquer agricultor, recorrendo para isso a práticas preventivas. No entanto, muitas vezes é necessário intervir contra a evolução rápida e massiva das pragas, doenças e infestantes, especialmente num contexto de alterações climáticas.

A disponibilidade e divulgação de informação sobre os sistemas de produção agrícola e mais especificamente sobre a forma de produção de cada alimento, tem sido uma exigência dos consumidores. A atenção a esta necessidade tem vindo a ser melhorada com publicação de legislação e maior disponibilização de informação pelos variados intervenientes na cadeia alimentar. Destaco este trabalho que a ANIPLA desenvolveu, entre outras iniciativas que tem em mãos.

A agricultura biológica dispõe de um leque de produtos fitofarmacêuticos muito mais reduzido que a restante agricultura, listados no anexo II do Regulamento nº 889/2008 da Comissão. São elaborados com substâncias de origem vegetal ou animal, a partir de microrganismos ou a partir de substâncias produzidas por microrganismos.

O controlo da produção biológica é um controlo ao processo de produção e não especificamente ao produto. Todos os operadores recebem anualmente (após o controlo) um certificado com uma data de validade passada pelo Organismo de Controlo, que comprova que o processo está controlado e em conformidade.

 

5. Na defesa de práticas sustentáveis, tem-se apelado ao consumo de produtos sazonais (da época) e locais. Qual a importância dessas práticas para os agricultores portugueses?

Importantíssimo! Todos temos a ganhar se o ambiente for preservado: agricultores, consumidores (todos nós!) e as gerações futuras. Consumir produtos da época implica menor artificialidade na sua produção e por isso, menor incorporação de recursos na sua obtenção, armazenamento e conservação. Consumir produtos locais implica menor consumo de energia e menor utilização de bens e equipamentos no seu transporte. Reduz a pegada ecológica, poupa o ambiente e os recursos escassos.

Na linha das práticas sustentáveis os agricultores portugueses encontram na produção sazonal e local mais uma opção para a sua rentabilidade e contribuem para a sustentabilidade nos territórios rurais.

 

 

 

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