Pedro Fevereiro: Os desafios para a alimentação e agricultura mundiais

A perceção sobre os desafios para a alimentação e agricultura mundiais, dentro e fora do sector.

Pedro Fevereiro, Presidente do CiB, o Centro de Informação de Biotecnologia, é o entrevistado desta semana.

Para aquele que foi o Primeiro Bastonário da Ordem dos Biólogos, uma grande parte dos portugueses está distante da realidade agrícola pois, segundo partilhou,” A maioria da população perdeu a perspetiva da importância e necessidade da agricultura para a sua sobrevivência”.

Pedro Fevereiro é ainda Professor Auxiliar com Agregação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e Diretor do Laboratório de Biotecnologia de Células Vegetais do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da Universidade Nova de Lisboa (ITQB NOVA).

 

1. Na sua perspetiva, qual a importância que a agricultura tem na alimentação mundial?

A Agricultura é a única atividade capaz de fazer frente ao desafio de alimentar os 7,5 milhares de milhão de seres humanos atualmente existentes. Em particular a produção vegetal, que permite a transformação da energia solar em energia química, é fundamental para a produção da energia, da proteína, das fibras, e das vitaminas necessárias à sobrevivência da espécie humana.

2. Considera que a população está ciente dos desafios da agricultura?

De facto, não. A maioria da população, sobretudo a que vive nas cidades perdeu a perspetiva da importância e necessidade da agricultura para a sua sobrevivência.

3. Na sua perspetiva, quais os maiores mitos existentes, por parte do consumidor, sobre a agricultura moderna?

O maior mito sobre a agricultura é aquele que diz que há uma agricultura “natural” que se distingue de “outras” agriculturas. A agricultura é uma atividade humana, que modificou radicalmente a grande maioria dos ecossistemas terrestres. Nada na agricultura é “natural” no sentido de se aproximar da natureza não intervencionada. O segundo maior mito é de que é possível alimentar a espécie humana atual sem a aplicação das modernas tecnologias. O terceiro mito é aquele que diz que as culturas atuais sempre existiram na forma que atualmente apresentam. Na verdade, nenhuma das espécies de que atualmente nos alimentamos existia na natureza há 10.000 anos e algumas variedades existem apenas há escassas décadas. O quarto mito é de que é possível garantir altas produtividades sem a utilização de fertilizantes e fitofármacos.

4. Quais são, na sua visão, os desafios ao setor agrícola para os próximos anos?

O principal desafio é aumentar as produtividades das culturas sem aumentar a área de produção, reduzindo ao máximo os custos de produção e os impactos no ambiente, de forma a garantir a segurança alimentar para uma população humana ainda em crescimento. Isso implica garantir que o potencial das culturas é traduzido na colheita, sem perdas para as pragas, doenças e fatores ambientais como a seca e a salinidade. Este desiderato será alcançado com a conjugação da utilização de práticas agrícolas mais precisas e de variedades vegetais ajustadas às condições edafo-climáticas dos locais onde vão ser produzidas. Neste contexto, todo o possível conhecimento, traduzido em inovação e tecnologia, terá que ser incorporado na agricultura.

5. Que medidas considera que deveriam ser tomadas pelo setor agrícola para aproximar o consumidor da agricultura moderna?

A agricultura é uma atividade essencial à sobrevivência da espécie humana. Se isso é verdade, então todas as crianças deveriam aprender o que é agricultura e entrar em contacto com a exploração agrícola e os agricultores durante a sua formação. Deveria fazer parte do currículo do ensino básico o contacto com a prática agrícola e a comunicação dos princípios modernos da agricultura e da sua história. Só assim se poderia, numa geração, aproximar o consumidor da agricultura e dos agricultores.

 

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